Há alguns perfumes que a gente reconhece antes mesmo de pensar sobre eles.

A lavanda é um deles.

Talvez porque ela esteja há tanto tempo presente dentro das casas — nos jardins, nas roupas de cama, nas gavetas, nos perfumes, em pequenos vasos sobre uma mesa. Ou talvez porque alguns cheiros simplesmente tenham essa capacidade curiosa de nos levar para outro lugar.

Às vezes, para uma casa onde estivemos anos atrás. Para a roupa de cama recém-trocada. Para o jardim de alguém. Para uma viagem. Para uma lembrança que nem sabíamos que continuava tão bem guardada.

É uma das coisas que mais gosto na lavanda: ela é familiar sem ser óbvia.

Uma flor que nunca ficou exatamente no passado

A lavanda atravessou épocas bastante diferentes e continua aparecendo na decoração, na perfumaria e também na moda.

E acho interessante observar como ela muda dependendo de onde está.

Em um jardim, tem aquela aparência quase despretensiosa, com as flores pequenas e compridas. Na decoração, o lilás pode ser delicado ou bastante sofisticado dependendo das cores que estão ao redor. No perfume, existe aquele frescor imediatamente reconhecível.

Não precisa, portanto, transformar uma casa inteira em lilás para trazer lavanda para dentro dela.

Aliás, eu prefiro justamente o contrário.

Um pouco dela.

Em uma peça sobre o aparador. Em um vidro. Em uma vela. Misturada a tons de verde, off-white, madeira, transparências e objetos que já faziam parte da casa antes dela chegar.

É quando as coisas não parecem excessivamente combinadas que, para mim, começam a ficar interessantes.

Casas que parecem casas novamente

Durante algum tempo vimos muitos interiores impecáveis, extremamente neutros e tão coordenados que poderiam pertencer a qualquer pessoa.

Bonitos? Sim.

Mas nem sempre era possível descobrir quem morava ali.

Tenho gostado bastante desse movimento contrário que começa a aparecer: casas mais pessoais, com objetos reunidos ao longo do tempo, estampas, livros, peças herdadas, coisas trazidas de viagens, cores que alguém simplesmente gosta — mesmo que não sejam “a cor da temporada”.

No fim, são justamente essas escolhas que fazem uma casa ganhar identidade.

Uma mesa que nunca está exatamente igual à outra.

Uma louça antiga convivendo com uma peça nova.

Uma vela que ficou bonita sobre um móvel e acabou permanecendo ali.

Um perfume que alguém sente ao entrar e passa a associar àquela casa.

Decorar também é construir esse repertório.

O perfume também faz parte da decoração

Falamos muito sobre aquilo que enxergamos dentro de uma casa e pouco sobre aquilo que sentimos nela.

Mas pense nas casas das quais você se lembra.

É bastante provável que exista algum cheiro associado a pelo menos uma delas.

Café, madeira, bolo assando, roupa limpa, flores no jardim, um perfume específico.

O olfato tem essa relação muito particular com a memória. Um aroma aparece e, antes mesmo que a gente consiga explicar exatamente de onde conhece aquilo, alguma lembrança já veio junto.

Por isso sempre achei curioso separar perfumaria de decoração como se fossem universos completamente diferentes.

Para mim, não são.

A luz de uma vela muda um ambiente.

O perfume muda a percepção daquele ambiente.

E o objeto que carrega tudo isso continua ali mesmo quando a vela está apagada.

Talvez seja justamente por isso que tenho tanto cuidado com os vidros e com as pinturas das nossas velas e difusores. Eles precisam fazer sentido antes, durante e depois do uso.

Vela acesa ao lado de cloche com lavandas pintadas à mão em ambiente aconchegante

 

A lavanda que chegou ao Atelier

Nossa nova estampa nasceu desse lugar.

Eu não queria uma lavanda excessivamente romântica e muito menos transformar a flor em um desenho certinho, repetido inúmeras vezes.

Queria preservar o que ela tem de mais bonito: os movimentos diferentes dos galhos, os verdes misturados aos lilases e essa aparência de flor que parece ter acabado de ser trazida de um jardim.

A pintura é feita à mão diretamente sobre o vidro, então uma peça nunca será milimetricamente igual à outra. E, neste caso, acho especialmente bonito que seja assim.

A coleção aparece agora em diferentes objetos para a casa, entre eles o Difusor Lavanda e a Vela Perfumada com o Cloche pintado à mão, com perfume de Lavanda Francesa.

São peças que podem estar juntas, claro, mas não precisam.

Uma delas sobre uma bandeja, entre livros, no lavabo ou ao lado da cama já consegue trazer a estampa para o ambiente sem exigir que todo o restante acompanhe o tema.

E talvez essa seja uma boa maneira de pensar decoração também.

Nem tudo precisa conversar perfeitamente.

Precisa fazer sentido para quem mora ali.

Sobre aquilo que escolhemos guardar

Há objetos que compramos para resolver alguma coisa.

E há outros que, com o tempo, acabam ficando associados a um período da nossa vida.

Eu gosto muito mais da segunda categoria.

Talvez uma peça tenha sido um presente. Talvez tenha sido comprada para a primeira casa. Talvez estivesse sobre a mesa em um almoço importante ou simplesmente tenha permanecido por tanto tempo no mesmo lugar que já não conseguimos imaginar aquele canto sem ela.

Não dá para fabricar esse tipo de relação antecipadamente.
Ela acontece.
E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de criar objetos para dentro das casas.

A gente pinta a lavanda sobre um vidro aqui no Atelier.
Depois disso, a história já não é mais nossa.